Branquela Sem Sentimentos

depre

Enquanto a luz do sol acabava com minha visão, ela ria de mim:

— Você ‘tá muito estranho com esses óculos redondos.

Fiquei calado e ela continuou rindo; algo, digamos, pitoresco, pois ela não ganhou a fama de ser estressadinha por ser de bem com a vida. É bom vê-la rir…

Tirou um picolé de dentro da bolsa e deu uma mordida, reclamou que doeu os dentes e jogou fora. Avistamos um par de cadeiras, que ela disse ser de carvalho, bem no meio da rua uns trinta metros de nós. Ela correu pra chegar primeiro. Sentamos. Comentei que nunca tinha visto de perto algo feito com madeira de carvalho e então ela disse que o carvalho daquelas cadeiras era da Iugoslávia.

— Mas não existe mais Iugoslávia.

— Você que pensa. Ela continua lá.

E explicou a existência da Iugoslávia e sua relação com a independência da República Oriental do Uruguai dos Emirados Árabes Unidos… Nunca imaginei que ela pudesse falar tanto. Sempre quis que ela falasse muito, mas nem sempre fui bem sucedido nas minhas tentativas de deixá-la à vontade. Naquele dia ela estava bem falante e eu estava gostando daquilo.

A nona dela apareceu com um chimarrão na mão dizendo não aguentar mais o gosto, estava enjoada de chimarrão todos os dias, e aproveitou para alertar a chegada do primo. Mal a simpática senhora tinha acabado de falar, eis que surgia o tal primo trazendo sua melhor amiga num carro de mão. A amiga não parecia estar muito contente e disse com sua voz meio rouca:

— Eu te deixo recado e você nem vê! Você é muito distraída!…

E foi interrompida por um rapaz meio gordinho que vinha andando apressado e falando alto, chamando a moça de voz meio rouca que foi com calma ver o que tanto ele queria. Minha amiga me puxou pelo braço e, já estressada, convidou-me a conhecer uma guria passo-fundense. Atravessamos a rua, ela bateu palmas, e a tal guria abriu a porta:

— O filme está em pausa desde ontem. Pensei que você não viria mais.

Empurrou-nos para dentro de casa, sentou-se num sofá no centro, eu sentei num da direita e minha amiga deitou-se no mesmo sofá que eu pondo a cabeça em meu regaço.

Com um caderno, um livro e uma caneta na mão, a guria passo-fundense não me deixava entender se ela via o filme ou se estudava. Já a Branquela Sem Sentimentos continuava a falar várias coisas que eu deixei de prestar atenção quando me distraí fitando seus olhos que estavam voltados ao teto enquanto gesticulava ao falar, aparentemente, aborrecida. Eu mexia em seus cabelos pensando em como aquela Branquela me ajudou por todo esse tempo. Sempre que precisei, e chamei, ela esteve comigo, e quando teimoso preferi não chamar pensando em não incomodar, ela parecia sentir e conversava comigo por horas sem nem saber direito do que estava se passando e com suas frases de pouca paciência me fazia rir e esquecer por uns instantes o que me preocupava. De um lado, alguém que reclamava de tudo, do outro, alguém que sempre está cansado de tudo, os dois lados estressados com a vida, permanentemente.

Dei um beijo em sua testa e continuei calado, passando os dedos por entre seus cabelos, até que ela parou de falar e dormiu. Foi a primeira vez naquele dia que ela ficou quietinha sem falar. Vez ou outra se movia daqui ou dali, mas estava bem serena. Não sei se ela gostava de ser serena, mas aquela imagem me passava a ideia de que ela estava em estado de paz; parece que só dormindo essa esquentadinha fica de bem consigo mesma — parece, pois pelo menos os sonhos daquele sono não aparentavam ser ruins.

O quê eu poderia fazer pra estender aquele bem estar dela pra quando acordasse? Ela nem me deu tempo de pensar, levantou num pulo e começou a procurar um relógio. Sua mãe apareceu reclamando que “você esqueceu de acertar o relógio de novo!”, e ela, confusa, apressada, procurava o relógio para acertar a hora:

— Ah, mãe! Não tenho tempo. É normal que eu esqueça. Você não vai ajudar muito onde está!

— Você nunca lembra das coisas! Da última vez deixou o pé esquerdo do tênis na URI e está lá até hoje…

Alguém bateu numa porta me chamando. “Como assim?! Ninguém me conhece aqui!”. Era a voz da minha avó:

— Vai pra universidade hoje não, é? Já são nove e meia!

Olhei para um lado e depois para o outro… Droga! Estou em Pernambuco.

“Este texto foi escrito baseado em sonhos!”

luan dqta

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