A Catedral, uma Frase e o Fim do Dia

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Não dava mais pra ficar em casa, enclausurado, isolado do resto do mundo, trancado até em mim mesmo; não se eu quisesse me ajudar a melhorar, aliviar o incômodo que estava sentindo.

Lembrei da catedral, e ela não ficava tão longe. Mais ou menos meia hora de caminhada e lá estava ela, a imponente e imperceptível catedral. Ocupava um quarteirão inteiro. No meio da cidade de gigantescos prédios, onde os carros passavam de um lado para outro, tão apressados quanto as pessoas falando ao celular, ouvindo música ou conversando com alguém no caminho de volta pra casa, a catedral com lindos arcos ogivais parecia não estar ali.

Eu entrei e me sentei.

Uma pessoa saiu, três senhoras rezavam baixo próximo ao altar, os vitrais iluminavam as colunas e as imagens de Santo Antônio de Lisboa, São Patrício, São Leão Magno, Santo Antão… todos com os nomes na base, caso contrário nunca os identificaria. Nenhum padre. Onde diabos estavam os padres?! Era minha única esperança de ser ouvido. Havia semanas que me sentia incomodado e pela primeira vez que eu tinha vontade de falar, e pior, eu tinha a necessidade de falar, um maldito padre não me aparece. É a função deles, não é? Cuidar do rebanho? Mesmo as ovelhas desgarradas merecem a atenção do pastor, para que não se percam demais. Não dava pra falar em casa, eles não entenderiam; não dava pra falar com os amigos, ou pelo menos aqueles que eu julgava serem meus amigos, eles eram a causa do meu incômodo, falar pra eles aparentaria uma cobrança que, mesmo me sentindo assim, pra mim era exacerbada. Não era de mim essa coisa de cobrar, e mesmo que fosse, eles não estavam dispostos a ouvir, eu sei que não, eles têm suas vidas, provam isso o tempo inteiro, por qual motivo se importariam com a minha?

A minha vida… A minha vida poderia ser comparada àquela catedral: vazia, três pessoas rezando baixo que eu não ousava interromper para pedir que me ouvissem — eu só precisava falar, por pra fora —, e nenhum padre. Sempre tem que ter um padre numa igreja, não é? Não se fazem mais padres como antigamente.

Sentado naquele vazio. Realmente não tinha maneira melhor de representar minha vida naquele momento.

Ao sair, bem na porta, um homem falou pra outro, que entrava, antes de seguirem caminhos diferentes “ser humano é ser maravilhosamente imperfeito”, eu já tinha ouvido isso em algum lugar, não lembro quando nem como, mas naquele momento a frase me chamou atenção. No caminho de volta eu ouvi um grupo de garotas, uma falando mal do namorado e outra reclamando que não tinha um namorado enquanto uma terceira só queria chegar logo em casa pra comer um pedaço de pizza que tinha restado da noite anterior. Mais pra frente um casal com sua filha parecia planejar pra onde ir no fim de semana, e, próximo deles, uma mulher parecia discutir com alguém pelo telefone e, pelo que notei, parecia achar que estava sendo enganada.

Cheguei ao prédio, peguei o elevador e fui direto lá pra cima. Gosto muito de ver o dia indo embora e a noite chegando: as luzes da cidade ganhando intensidade enquanto as nuvens alaranjadas dão lugar à escuridão.

Se eu olhasse pra baixo daria pra ver as pessoas passando por algumas ruas, não conseguia ouvir, claro, mas dava pra ver. Eu, meio que automaticamente, mas sem motivo aparente, comecei a imaginar o que se passava em cada vida lá em baixo, tão pequenas diante da imensidão do universo e tão grandes para elas mesmas.

Alguém podia estar aflito, lutando para conseguir tirar o filho das drogas; outra podia estar correndo pra casa pra cuidar da mãe que é doente mas que tem que ficar em casa sozinha o dia inteiro enquanto a filha trabalha pra ganhar um salário que só dá pra comprar a comida e os remédios e olhe lá e não tem condições de pagar uma pessoa pra tomar conta da mãe enquanto não está em casa; um homem podia estar voltando pra casa com a triste notícia de que, por mais um dia, não conseguiu um emprego; um mendigo não sabe o que vai comer amanhã e a mulher que passava ao lado dele não sabia que no interior do Mato Grosso seu pai estava agonizando naquele exato momento, prestes a morrer com um infarto; a mãe solteira de três filhos voltava do hospital com diagnóstico de leucemia e não sabia como que iria contar pros filhos, como que os filhos iriam ficar caso ela morresse… E eu, reclamando de meus amigos por terem me esquecido. Ridículo. Eu não tenho problema na minha vida. Senti-me o maior dos egoístas, o detentor da suprema futilidade. (…) Fiquei sentado ali por aproximadamente duas horas, até que não dava mais pra guiar os pensamentos.

Desci. Eles não se lembravam de mim, mas eu não me esquecia deles. Peguei o celular e liguei pra uma série de amigos, liguei pra saber como estavam.

 

luan dqta

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